segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Deslocamento dos valores


O que será que move a geração de jovens atualmente? Dinheiro? Status? Imagem? Fazer parte de um grupo seleto que detem para si um conjunto de informações privilegiadas?
Jean Clark Juliano, psicóloga e autora de diversos livros sobre comportamento humano, fala com grande conhecimento e pasmo sobre o assunto. “Esse tipo de vida é radicalmente contrário a tudo que aprendi a considerar saudável no que se refere à mente e corpo. Fico perplexa, sem saber por onde começar... Esses novos tempos tem me trazido a consciência da riqueza de mudanças e questionamentos. Parece que tudo aquilo que eu tinha como certeza não vale para os dias de hoje. Que a verdade é transitória! Percebo um mundo em transição, que ainda não consigo nomear com clareza, tendo presente apenas a sensação da rapidez fantástica da passagem do tempo. Sou de uma geração que pode ser taxada de romântica, mas se insurgiu contra a ditadura do excesso de consumo, contra a rigidez de costumes, contra o autoritarismo esclerosante que aniquilava qualquer tentativa de criatividade, de experimentação, de liberdade. Antes, o refrão em voga era: “Faça amor, não faça guerra”. Fomos motivados a voltar ao simples, a desejar e possuir somente aquilo que nos fosse necessário. Os critérios fundamentais eram a felicidade e a independência. Foi também nessa época que surgiu com toda a força o movimento – Nova Era, trazendo consigo um profundo respeito pela natureza – e também o retorno a ela. Hoje, o ideal de integração com a natureza, respeitando-a e com ela aprendendo a levar a vida de maneira mais rica e espontânea, que abra espaço pra criação, está sendo  desvalorizado. Acreditávamos que a mudança social, a grande revolução proposta, se iniciava pela busca individual da própria alma. O grande heroísmo consistia no contato vibrante com a realidade pessoal para depois, aos poucos, ir se ampliando, por essa via chegaríamos ao social. O nosso espelho eram olhos amigos e amorosos em que cada pessoa podia se ver confirmada e aprovada em sua singularidade, sentindo-se tão mais perfeita quanto mais parecida consigo mesma.
Atualmente, consegue ser valorizado aquele que se mostra sempre de modo extrovertido, que a todo momento está vendendo a própria imagem; que tem múltiplas atribuições, fazendo do seu dia uma correria desabalada, mostrando-se capaz de “surfar” acima de todas as ondas sem se deixar comprometer com nada. Se existem duas palavras temidas e banidas na nossa sociedade são: compromisso e intimidade. Tudo hoje ocorre numa rapidez estonteante e de maneira muito intensa, sem tempo de preparação ou reflexão, sem que possa escolher, discriminar aquilo que é nutritivo daquilo que é tóxico. Nem o ritual diário da refeição familiar em conjunto, momento em que são compartilhadas e valorizadas as vivências do dia em que se trocam histórias, dando colorido aos acontecimentos, é importante. Esse novo jeito de viver não permite que se teçam relações, impede que o grupo familiar seja introduzido num enredo que vai se tornando importante porque é compartilhado.
Sou tomada de perplexidade e rebeldia quando observo esse estado de coisas. Fico me indignando como ser moderna e atual com simplicidade, sem ter que renunciar aos anseios e sonhos, tendo espaço para conviver. Como ser coerente conosco sem desrespeitar o que importa em termos humanos? Como tecer uma rede afetiva que garanta um espelho nítido no qual cada um possa se ver como digno de ser amado, perfeito e singular? Como transmitir a noção de tempo onde existe a possibilidade do ensaio, da escolha, do aprendizado?”

Particularmente acredito que nossos valores estão intactos no nosso coração, apenas aguardando buscarmos a quietude, dando espaço para o mergulho e consulta a nossa essência interior – aquela que fica guardada no fundo do nosso ser, embora só seja visitada em situações de crise. Que então seja bem vinda a crise, restaurando nossos valores adormecidos. 
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