O que será que move a
geração de jovens atualmente? Dinheiro? Status? Imagem? Fazer parte de um grupo
seleto que detem para si um conjunto de informações privilegiadas?
Jean Clark Juliano,
psicóloga e autora de diversos livros sobre comportamento humano, fala com
grande conhecimento e pasmo sobre o assunto. “Esse tipo de vida é radicalmente
contrário a tudo que aprendi a considerar saudável no que se refere à mente e
corpo. Fico perplexa, sem saber por onde começar... Esses novos tempos tem me
trazido a consciência da riqueza de mudanças e questionamentos. Parece que tudo
aquilo que eu tinha como certeza não vale para os dias de hoje. Que a verdade é
transitória! Percebo um mundo em transição, que ainda não consigo nomear com clareza,
tendo presente apenas a sensação da rapidez fantástica da passagem do tempo.
Sou de uma geração que pode ser taxada de romântica, mas se insurgiu contra a
ditadura do excesso de consumo, contra a rigidez de costumes, contra o
autoritarismo esclerosante que aniquilava qualquer tentativa de criatividade,
de experimentação, de liberdade. Antes, o refrão em voga era: “Faça amor, não
faça guerra”. Fomos motivados a voltar ao simples, a desejar e possuir somente
aquilo que nos fosse necessário. Os critérios fundamentais eram a felicidade e
a independência. Foi também nessa época que surgiu com toda a força o movimento
– Nova Era, trazendo consigo um profundo respeito pela natureza – e também o
retorno a ela. Hoje, o ideal de integração com a natureza, respeitando-a e com
ela aprendendo a levar a vida de maneira mais rica e espontânea, que abra
espaço pra criação, está sendo
desvalorizado. Acreditávamos que a mudança social, a grande revolução
proposta, se iniciava pela busca individual da própria alma. O grande heroísmo
consistia no contato vibrante com a realidade pessoal para depois, aos poucos,
ir se ampliando, por essa via chegaríamos ao social. O nosso espelho eram olhos
amigos e amorosos em que cada pessoa podia se ver confirmada e aprovada em sua
singularidade, sentindo-se tão mais perfeita quanto mais parecida consigo
mesma.
Atualmente, consegue
ser valorizado aquele que se mostra sempre de modo extrovertido, que a todo
momento está vendendo a própria imagem; que tem múltiplas atribuições, fazendo
do seu dia uma correria desabalada, mostrando-se capaz de “surfar” acima de
todas as ondas sem se deixar comprometer com nada. Se existem duas palavras
temidas e banidas na nossa sociedade são: compromisso e intimidade. Tudo hoje
ocorre numa rapidez estonteante e de maneira muito intensa, sem tempo de
preparação ou reflexão, sem que possa escolher, discriminar aquilo que é
nutritivo daquilo que é tóxico. Nem o ritual diário da refeição familiar em
conjunto, momento em que são compartilhadas e valorizadas as vivências do dia
em que se trocam histórias, dando colorido aos acontecimentos, é importante.
Esse novo jeito de viver não permite que se teçam relações, impede que o grupo
familiar seja introduzido num enredo que vai se tornando importante porque é
compartilhado.
Sou tomada de
perplexidade e rebeldia quando observo esse estado de coisas. Fico me
indignando como ser moderna e atual com simplicidade, sem ter que renunciar aos
anseios e sonhos, tendo espaço para conviver. Como ser coerente conosco sem
desrespeitar o que importa em termos humanos? Como tecer uma rede afetiva que
garanta um espelho nítido no qual cada um possa se ver como digno de ser amado,
perfeito e singular? Como transmitir a noção de tempo onde existe a
possibilidade do ensaio, da escolha, do aprendizado?”
Particularmente acredito
que nossos valores estão intactos no nosso coração, apenas aguardando buscarmos
a quietude, dando espaço para o mergulho e consulta a nossa essência interior –
aquela que fica guardada no fundo do nosso ser, embora só seja visitada em
situações de crise. Que então seja bem vinda a crise, restaurando nossos
valores adormecidos.
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