segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Gente vazia


Atualmente, o problema fundamental do ser humano é o vazio. Isso não quer dizer que  muita gente ignora o que quer, mas que, frequentemente, também não  tem uma ideia clara dos sentimentos. Quando  falam sobre falta de autonomia, ou se lamentam sobre a incapacidade para tomar decisões, fica claro que o verdadeiro problema é não ter uma experiência definida dos próprios desejos e necessidades. Oscilam desse modo de  um lado para outro se sentindo impotentes, ocas e vazias.
Esse vazio, essa incapacidade para saber o que sentem ou desejam são devidos ao fato de vivermos numa época de incertezas. Essa sensação de vácuo não deve ser tomada no sentido de que as pessoas são desprovidas de potencialidades. A sensação de vazio provém, geralmente, da ideia de incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo. O vácuo interior é o resultado acumulado, em longo prazo, da convicção pessoal de ser incapaz de agir, de dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência sobre o mundo que nos rodeia. Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que a tantos aflige hoje. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade. Quando alguém continuamente defronta-se com um perigo que é incapaz de vencer, sua linha final de defesa é evitar a sensação de perigo.

O grande perigo desta situação de vácuo e impotência é conduzir, mais cedo ou mais tarde, à ansiedade e ao desespero e finalmente, se não corrigida, ao desperdício e ao bloqueio das mais preciosas qualidades do ser humano. Os resultados finais serão a redução e o empobrecimento psicológico, ou então a sujeição a uma autoridade destrutiva.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Deslocamento dos valores


O que será que move a geração de jovens atualmente? Dinheiro? Status? Imagem? Fazer parte de um grupo seleto que detem para si um conjunto de informações privilegiadas?
Jean Clark Juliano, psicóloga e autora de diversos livros sobre comportamento humano, fala com grande conhecimento e pasmo sobre o assunto. “Esse tipo de vida é radicalmente contrário a tudo que aprendi a considerar saudável no que se refere à mente e corpo. Fico perplexa, sem saber por onde começar... Esses novos tempos tem me trazido a consciência da riqueza de mudanças e questionamentos. Parece que tudo aquilo que eu tinha como certeza não vale para os dias de hoje. Que a verdade é transitória! Percebo um mundo em transição, que ainda não consigo nomear com clareza, tendo presente apenas a sensação da rapidez fantástica da passagem do tempo. Sou de uma geração que pode ser taxada de romântica, mas se insurgiu contra a ditadura do excesso de consumo, contra a rigidez de costumes, contra o autoritarismo esclerosante que aniquilava qualquer tentativa de criatividade, de experimentação, de liberdade. Antes, o refrão em voga era: “Faça amor, não faça guerra”. Fomos motivados a voltar ao simples, a desejar e possuir somente aquilo que nos fosse necessário. Os critérios fundamentais eram a felicidade e a independência. Foi também nessa época que surgiu com toda a força o movimento – Nova Era, trazendo consigo um profundo respeito pela natureza – e também o retorno a ela. Hoje, o ideal de integração com a natureza, respeitando-a e com ela aprendendo a levar a vida de maneira mais rica e espontânea, que abra espaço pra criação, está sendo  desvalorizado. Acreditávamos que a mudança social, a grande revolução proposta, se iniciava pela busca individual da própria alma. O grande heroísmo consistia no contato vibrante com a realidade pessoal para depois, aos poucos, ir se ampliando, por essa via chegaríamos ao social. O nosso espelho eram olhos amigos e amorosos em que cada pessoa podia se ver confirmada e aprovada em sua singularidade, sentindo-se tão mais perfeita quanto mais parecida consigo mesma.
Atualmente, consegue ser valorizado aquele que se mostra sempre de modo extrovertido, que a todo momento está vendendo a própria imagem; que tem múltiplas atribuições, fazendo do seu dia uma correria desabalada, mostrando-se capaz de “surfar” acima de todas as ondas sem se deixar comprometer com nada. Se existem duas palavras temidas e banidas na nossa sociedade são: compromisso e intimidade. Tudo hoje ocorre numa rapidez estonteante e de maneira muito intensa, sem tempo de preparação ou reflexão, sem que possa escolher, discriminar aquilo que é nutritivo daquilo que é tóxico. Nem o ritual diário da refeição familiar em conjunto, momento em que são compartilhadas e valorizadas as vivências do dia em que se trocam histórias, dando colorido aos acontecimentos, é importante. Esse novo jeito de viver não permite que se teçam relações, impede que o grupo familiar seja introduzido num enredo que vai se tornando importante porque é compartilhado.
Sou tomada de perplexidade e rebeldia quando observo esse estado de coisas. Fico me indignando como ser moderna e atual com simplicidade, sem ter que renunciar aos anseios e sonhos, tendo espaço para conviver. Como ser coerente conosco sem desrespeitar o que importa em termos humanos? Como tecer uma rede afetiva que garanta um espelho nítido no qual cada um possa se ver como digno de ser amado, perfeito e singular? Como transmitir a noção de tempo onde existe a possibilidade do ensaio, da escolha, do aprendizado?”

Particularmente acredito que nossos valores estão intactos no nosso coração, apenas aguardando buscarmos a quietude, dando espaço para o mergulho e consulta a nossa essência interior – aquela que fica guardada no fundo do nosso ser, embora só seja visitada em situações de crise. Que então seja bem vinda a crise, restaurando nossos valores adormecidos. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cortando o cordão umbilical



O ser humano precisa desapegar-se dos elos infantis de dependência que os liga aos pais. Não é tarefa simples, a ser iniciada com uma repentina resolução, concretizada numa grande explosão de liberdade, ou num “desentendimento” com os pais. É uma questão de demorada e difícil evolução para novos planos de integração – evolução significando não um processo automático, e sim reeducação, descoberta de novas ideias, tomada de decisões conscientes e uma boa vontade constante para enfrentar lutas ocasionais ou frequentes. Quem se submete a psicoterapia precisa muitas vezes investigar seus padrões durante várias sessões para descobrir até que ponto está preso sem saber, e verificar que tal prisão existe sob sua capacidade de amar, trabalhar, ou seguir uma vocação. Descobre então que a luta para tornar-se uma pessoa independente provoca, na maioria das vezes, considerável ansiedade e até mesmo um certo medo. Não é surpreendente que os que lutem para romper tais cadeias passem por terríveis perturbações e conflitos emocionais. Em essência, o conflito é deixar um local protegido e familiar por uma nova independência, sair do apoio para o isolamento temporário, sentindo-se ao mesmo tempo impotente e ansioso. A luta assume um caráter grave quando a pessoa já conseguiu evoluir em estágios anteriores; assim, os conflitos se avolumam e o eventual rompimento é mais traumático e radical.

A luta para tornar-se uma pessoa independente ocorre no íntimo da própria pessoa. Ninguém pode evitar de se colocar contra pais exploradores, ou às forças externas do ambiente, mas a luta psicológica crucial que devemos empreender é contra as nossas dependências, a ansiedade e os sentimentos de culpa surgem à medida que evoluímos para a liberdade. O conflito básico dá-se entre aquela parte da pessoa que procura evoluir, expandir-se e ser sadia, e a outra que anseia por permanecer em nível imaturo, atada ao cordão umbilical psicológico e recebendo a pseudoproteção e os mimos dos pais, em troca da independência.
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